Agora nós vamos ter um tête à tête:
O universo é infinito/
Gente não.
coisa?
… não,
Trabalho? às vezes,
mas não.
Dinheiro? também não.
Amor, talvez…
Saudade? Pode ser…
Inseto, é infinito?
Infinita? Infinite?
Agora nós vamos ter um tête à tête:
O universo é infinito/
Gente não.
coisa?
… não,
Trabalho? às vezes,
mas não.
Dinheiro? também não.
Amor, talvez…
Saudade? Pode ser…
Inseto, é infinito?
Infinita? Infinite?
Manoel de Barros diria que eu tenho privilégio insetal.
Na verdade eu vivo muito mais tempo escondida do que eu gostaria.
Só apareço quando me dão espaço e olha que, ultimamente, isso não está fácil.
Não é todo dia que te dão espaço.
Na verdade, quando isso acontece é quase um milagre.
As cores agora são brilhante fosco,
O verde já não é mais verde limão,
tá mais pra verde bandeira e
as margaridas ficam
como
silhuetas
furtacor.
O tempo do jardim é o tempo do outro
Nietzsche dizia que a gravidez é a nossa Esperança mais secreta.
Adoro filosofia.
Às vezes eu me apego a uns títulos de livros como o “Cartografias do Desejo”.
E toda vez que eu olho pra ele eu fico pensando como seria essa cartografia desejosa…?
Aí eu imagino como se fosse um grande mapa do tesouro
Com regras, tipo: siga tais pistas e encontre o desejo
Ou então, cruze tantas linhas e chegue no desejo
E o desejo mais íntimo também daria pra encontrar e não só o aparente
Prêmio?
Teria.
O prêmio seria o próprio desejo e não o desejo de outra pessoa
E quem só participasse do jogo, sem vencer, também ganharia um prêmio
tipo prêmio de consolação.
Participe da caça ao desejo e ganhe uma esperança!
Imagina?! Como se tivesse num programa do Silvio Santos
e aí as portas se abrem/
Eu vejo a Esperança
Ela continua ali, na cadeira, imóvel, sentada/ Quer dizer em pé, sentada, eh, sobre quatro patas, pernas, não sei, membros, enfim, do jeitinho que ela é.
Faz dois dias que ela está aqui em casa.
Tomo meu café e vejo a “esperança” pousada na cadeira.
Um inseto, pequenininho, verde limão, de olhos redondos, pretos,
que brilha quando a luz
bate na sua pele… sua casca….
que amor, cuti cuti, antena grandinha da mamãe/
Ela se precipita/
Continuo o meu café atenta a qualquer micro movimento.
Por que a Esperança se move assim?
Ela se inclina pra frente/
parece que me escuta!
Achei que nunca mais alguém fosse sentar nessa cadeira.
Será que ela está a caminho de… /alguma coisa?
Ou só querendo ver mais longe?
com mais precisão?
Parou de novo.
Parece agora até um retrato da imortalidade.
“A esperança na cadeira amarela da mamãe”.
No dia em que a minha mãe morreu, em Petrópolis, onde ela morava,
eu saí do hospital e fui direto pra casa dela pra pegar as suas roupas,
as roupas que ela ia vestir no velório.
Quando eu cheguei na entrada da casa, vi a cadeira amarela que ela costumava tomar sol,
no jardim. A mesma cadeira que a minha avó também tomava sol.
Tipo de coisa que passa de mãe pra filha.
Cheguei bem pertinho … e vi uma Esperança na cadeira da mamãe.
No dia seguinte, a minha irmã me contou que logo de manhã abriu a janela do
quarto da minha mãe, pra entrar um sol, e também abriu a janela do quarto da minha avó.
Deixando as duas, assim, abertas, lado a lado.
E apareceram duas Esperanças.
No outro dia, na minha casa, no Rio de Janeiro, eu entrei na cozinha e
no banquinho em que a minha mãe sempre sentava pra me fazer companhia
e me ver cozinhar,
tinha uma Esperança.
Minha mãe sugeriu que eu colocasse cortinas amarelas no meu quarto.
“Vai parecer que tem sol dentro do seu quarto, minha filha!”
Esperançar também é amarelar?
Vou até a cadeira e tento me agarrar/
Voo até a cadeira e tento me pousar/
Mãe: Minha filha, o que você tá fazendo?
Eu: Só um minutinho mãe/ eu tô/
Mãe: Não quero te atrapalhar não, mas cuidado para você não se cansar.
Tadinha da minha filha! Tudo isso que você faz é muito cansativo.
Eu: Nada mãe, não tô cansada não.
Me dava arrepio quando/
Dizem que o arrepio é a primeira imagem do pensamento/
Me dava arrepio quando eu tava fazendo alguma coisa que eu gostava e a minha mãe me interrompia/… eu tava trabalhando e ela pá, parecia até que sentia/… ela se desculpava mas dizia sempre que eu tava me cansando/ … talvez ela é que tivesse cansada/
A Esperança voou.
Tenho medo de inseto.
O que será que ela tava fazendo que a deixava tão cansada? A minha mãe?
meu melhor poema até agora